Política
O Suserano e seus Vassalos na política de Arcoverde
Segunda-feira, 19h. Hora marcada, cadeiras postas, microfones à espera. Do lado de fora, a cidade seguia seu curso, entre o cansaço do dia e a esperança de quem ainda acredita na política como instrumento de transformação. Do lado de dentro, porém, o que se viu foi o retrato de um silêncio ensurdecedor.
A sessão ordinária da Câmara Municipal de Vereadores de Arcoverde simplesmente não aconteceu.
E não aconteceu não por falta de pauta, nem por ausência de demandas — essas sobram —, mas pela ausência quase completa daqueles que juraram representar o povo. Dos dez vereadores eleitos pelo voto popular, apenas um compareceu. Nove cadeiras vazias. Nove vozes caladas. Nove ausências que, juntas, inviabilizaram o funcionamento do Poder Legislativo.
Restou ali apenas o presidente da Câmara, vereador Luciano Pacheco, figura solitária em um plenário que mais parecia cenário de abandono institucional. Sua presença, firme e isolada, contrastava com a ausência coletiva dos demais parlamentares, como se estivesse tentando sustentar, sozinho, o peso de uma democracia momentaneamente desmoronada.
E foi nesse vazio que a velha metáfora ganhou vida: a do suserano e seus vassalos.
Não se trata aqui de nomes, mas de práticas. O suserano de plantão, figura invisível, mas onipresente, que orienta, articula e, ao que tudo indica, determina quando os seus devem agir — ou se omitir. E os vassalos, por sua vez, não como representantes do povo, mas como peças de um tabuleiro onde a autonomia parece ter sido substituída pela conveniência.
A política, que deveria ser espaço de debate, confronto de ideias e construção coletiva, transforma-se, assim, em um teatro de ausências. Um jogo onde não comparecer pode dizer mais do que qualquer discurso. Onde o silêncio é estratégia e a omissão, método.
Nunca na história política de Arcoverde se viu algo semelhante. E não é exagero afirmar que o episódio ultrapassa o campo do inusitado para adentrar o território preocupante da fragilidade institucional. Porque quando nove vereadores deixam de cumprir sua função básica, não é apenas uma sessão que deixa de acontecer — é a própria representação popular que se esvazia.
Enquanto isso, a população, que confiou seu voto e suas expectativas, permanece à margem, assistindo de longe a um espetáculo que não pediu para ver. Um espetáculo onde os interesses coletivos parecem cada vez mais distantes das decisões — ou da falta delas.
Arcoverde, que já foi palco de tantas lutas e conquistas, não merece uma política de ausências. Não merece representantes que se calam quando deveriam falar, que faltam quando deveriam estar presentes, que obedecem quando deveriam questionar.
Porque, no fim, não há espaço para suseranos em uma democracia de verdade. E muito menos para vassalos onde deveria haver representantes do povo.
Verones Carvalho
Cientista Político e escritor


