Política
Um axioma em xeque? Quando a aprovação não vira voto
Por Djnaldo Galindo
Um dos axiomas mais repetidos da ciência política brasileira diz que incumbente bem avaliado não perde eleição. Pernambuco, em 2026, está testando essa lei.
A governadora Raquel Lyra chega à reta final com 59% de aprovação e 33% de desaprovação, segundo a Quaest divulgada nesta terça-feira, dia 29. No levantamento anterior, do dia 23, eram 61% de aprovação e 27% de desaprovação. A avaliação positiva também caiu para 46%, a negativa subiu para 18% e o índice dos que acham que ela merece novo mandato recuou de 63% para 60%. Pesquisa contratada pela Globo, com 1.302 entrevistas entre 25 e 28 de setembro, margem de 3 pontos, registro TSE PE-00324/2026.
Mesmo assim, a mesma Quaest mostra empate técnico absoluto em intenção de voto: Raquel Lyra e João Campos com 42% cada.
Por que a aprovação não vira voto?
A hipótese central é que essa aprovação é mais de vitrine do que de experiência concreta. Ela se sustenta em dois pilares. O investimento milionário e sem precedentes em publicidade institucional, que cria uma percepção difusa de que o governo está trabalhando. E o apoio estrondoso de mais de 150 prefeituras, que infla a avaliação por mimetismo político no interior, não por entrega na ponta. É a cristalização de uma avaliação irreal, e a queda de 61% para 59% em menos de uma semana já sinaliza a rachadura.
É aí que o processo eleitoral funciona como despertador. Nos debates, João Campos tem constrangido a governadora com uma pergunta simples e aritmética: quantas delegacias da mulher 24h, escolas técnicas, creches e hospitais foram efetivamente entregues e reformados em quase quatro anos? A pergunta fica sem lastro porque a população também não vê a resposta no dia a dia.
O contraste é o que dá aderência ao discurso crítico. Com um orçamento muito menor à frente da prefeitura do Recife, João Campos construiu um legado de entregas que são mais percebidas pela população da capital, com obras visíveis, com endereço e uso cotidiano – requalificação de unidades de saúde, programa de creches, intervenções urbanas. No estado, a queixa que vem do Agreste ao Sertão segue primária: falta d’água, falta delegacia, hospital sem reforma.
O que está em jogo não é só uma disputa entre Raquel e João, mas entre duas teorias de poder. Uma aposta que aprovação sustentada por marketing e base de prefeitos garante reeleição. A outra aposta que o eleitor vai votar não no governo que avalia bem no telefone, mas no que sente na vida real.
A aprovação de 59% resiste enquanto pergunta genérica. Ela derrete quando a pergunta vira específica: o que melhorou na sua vida por responsabilidade do governo estadual? Se o empate de 42% a 42% se confirmar, Pernambuco terá mostrado que marketing sustenta percepção, mas só entrega concreta reelege.
