Política
A Falsa Ilusão das Pesquisas Pós-Festejos Juninos: Entre o Brilho Passageiro e a Realidade da Gestão Pública
Com o encerramento dos festejos juninos, uma tradição marcante no calendário cultural de diversas cidades nordestinas, surgem também os primeiros levantamentos de popularidade de prefeitos e prefeitas que apostaram alto nos eventos como vitrine de suas gestões. Alguns gestores, embalados pelo clima de euforia e satisfação popular momentânea, celebram os índices positivos de avaliação como se fossem reflexo direto de um governo eficaz. No entanto, é preciso lançar um olhar mais crítico sobre essas pesquisas e o contexto em que foram realizadas.
A memória afetiva dos festejos ainda pulsa no imaginário coletivo. As multidões que lotaram as praças, os shows grandiosos, a decoração temática e o clima de confraternização influenciam, sim, a percepção popular. Mas essa percepção é, muitas vezes, transitória e emocional. A anestesia provocada pelo brilho das luzes e pelo som dos grandes artistas tende a esconder, ainda que temporariamente, a face concreta da gestão pública: saúde precária, ruas esburacadas, escolas com estrutura deficitária e políticas públicas ineficientes.
É inegável que as festas juninas têm valor cultural, social e econômico. Porém, quando a estrutura do evento assume proporções megalomaníacas, com cifras milionárias em cachês artísticos — quase sempre bancadas com recursos públicos —, cabe à população e aos órgãos de controle perguntar: qual o real custo-benefício? A quem interessa uma gestão que investe mais em imagem do que em políticas de impacto social e desenvolvimento sustentável?
Após o apagar das luzes dos palcos e o recolhimento das bandeirolas, a realidade volta a bater à porta dos cidadãos. E é justamente nesse momento que a população tende a se tornar mais crítica, mais atenta, mais fiscalizadora. A euforia dá lugar à reflexão. O encanto cede espaço à cobrança por obras, ações estruturantes, investimentos em saúde, educação, mobilidade urbana, saneamento e geração de emprego e renda.
As pesquisas de avaliação feitas imediatamente após eventos de grande porte devem ser lidas com cautela. Elas não necessariamente refletem a aprovação do conjunto da gestão, mas sim o impacto emocional provocado por um período de festa. São, portanto, retratos parciais, muitas vezes turvados pelo entusiasmo popular e pela narrativa propagada nas redes sociais.
O desafio dos gestores é transformar a popularidade momentânea em confiança duradoura. Isso só se conquista com trabalho sério, transparência, responsabilidade fiscal e compromisso real com as necessidades da população. O povo, mais cedo ou mais tarde, saberá distinguir o governante que investe em show de ilusionismo daquele que aposta em políticas públicas de verdade.
Enquanto alguns se embriagam com os números das pesquisas de ocasião, o povo desperta, aos poucos, do transe junino e começa a fazer a pergunta que realmente importa: de que maneira a gestão tem melhorado, de fato, minha vida e minha cidade?
Verones Carvalho
Escritor e Cientista Político


