Conectar com

Jornal Portal do Sertão

Bem Vindo! Hoje é Sexta-Feira, dia 06 de Março de 2026

Crônica: O Cercadinho e o Silêncio

Política

Crônica: O Cercadinho e o Silêncio

Há gestores que caminham pela vida pública como se o mundo lhes tivesse sido entregue numa bandeja de prata. Carregam nos ombros a arrogância — esse velho conselheiro da ruína — e acreditam que, por ocuparem um cargo eletivo, possuem um tipo raro de poder absoluto. Esquecem que o poder, como o vento forte do verão, muda de direção sem aviso prévio.

Pior ainda é quando os que os cercam não têm coragem, autonomia ou sequer interesse em dizer a verdade. São bajuladores profissionais, vigias do elogio fácil, que transformam qualquer equívoco em genialidade, qualquer erro em aplauso. E o gestor, protegido por esse cercadinho de cabeças sempre inclinadas, vai acreditando que sabe mais que todos, que suas escolhas são infalíveis, que sua vontade é lei.

Mas a política, essa velha professora, costuma ser rápida. Ensina em semanas o que livros não explicam em anos. E uma decisão equivocada — dessas tomadas entre a vaidade e o impulso — cedo ou tarde cobra seu preço. O retorno, geralmente, é amargo. Daqueles que mancham biografias e reduzem a pó a pretensão do poder eterno.

A verdade é simples: líder que não dialoga, não ouve, não se abre ao contraditório… não lidera. No máximo, comanda um pequeno território cercado de elogios vazios e conselhos tortos. Um cercadinho. E ali dentro, achando que todos o respeitam, não percebe que apenas o temem, o toleram, ou, pior, o usam.

O diálogo transparente — aquele que nasce do encontro real com a população, dos olhos nos olhos, das demandas que vêm da rua — é o que transforma um eleito em líder. É o que faz sua influência ultrapassar a porta estreita dos gabinetes e ganhar sentido no cotidiano das pessoas.

Sem isso, sobra apenas o eco da própria voz. E quem governa ouvindo apenas a si mesmo está fadado ao isolamento. A política é sábia: já mostrou incontáveis vezes que quem se guia pela arrogância acaba visitando o ostracismo — e, muitas vezes, permanecendo lá por muito tempo.

Porque, no fim das contas, não é o cargo que faz o líder. É a capacidade de ser humano antes de gestor, de ouvir antes de mandar, de aprender antes de julgar.

E esse entendimento, embora simples, tem sido raro. Mas sempre chega — para uns como aprendizado; para outros, como sentença

Verones Carvalho
Escritor e cientista político

Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais em Política

Topo
error: BLOQUEADO!